Lindo relato de Rudolf Waller (de um grupo de amigos de Sorocaba que ajuda pessoas carentes)
Anjos
Certos fatos podem mudar drasticamente nossas vidas. Muitos nem chegam a percebê-los, já outros aceitam a grande oferta que a vida oferece. Foi isto que ocorreu há quatorze anos em uma noite gelada de São Paulo. Kaká encontrou um idoso morador de rua num semáforo, tremendo de frio, pedindo dinheiro para comida. Aquilo o chocou de tal maneira que mudou radicalmente sua vida.
Sexta-feira., tarde da noite, véspera do aniversário da cidade de São Paulo. Cida, minha esposa, me chama com urgência na sala para ver uma matéria do Globo Repórter. Era sobre um grupo de amigos de São Paulo chamados “Anjos da Noite” que entrega alimentação para centenas de moradores de rua nas noites de sábado. Pegamos o telefone de contato no site deles (Anjos da Noite) e marcamos a visita para o dia seguinte mesmo.
Fomos muito bem recebidos, juntamente com um monte de gente que viu a reportagem na noite anterior. Após levarmos as panelas com comida para a Kombi e fazermos uma linda oração, fomos todos ao local de distribuição, perto da estação Santa Cecília, embaixo do Minhocão.
Quantas crianças nos aguardavam! Em grupos, abraçados às mães, correndo, quietas, sapecas, tímidas. Sorridentes como todas deveriam ser, esbanjando felicidade por mais uma noite ansiada pela semana inteira. Uma emocionada menininha com sorriso farto nos diz que consegue arranjar comida e roupa por aí, mas atenção e carinho ela só encontra nesta hora.
Mesas e cadeiras de metal são abertas, panelas prontas sobre o imenso balcão, fila enorme de gente faminta. “Anjos” começam a servir àqueles seres tão especiais, lutadores por natureza, teimosos por não desistirem de sorrir. Bênçãos são ofertadas juntamente com o alimento, numa fartura resultante da união de pessoas interessadas somente no bem estar dos que ali moram.
Um senhor de muleta me chama. Conta-me que era professor de matemática, mas teve um acidente, perdeu o emprego e passou a morar na rua. Percebo que está um pouco alterado, provavelmente a bebida é o seu único consolo. Elogia “nosso” trabalho, agradecendo a visita, o carinho, a comida. Engana-se, amigo, lhe demos muito pouco. Nós é que ganhamos, sim, uma grande lição de vida como tantas outras que recebemos de corações calejados pela vida sofrida. Logo ele parte, carregado por dois amigos seus, sumindo na imensidão das ruas, levando consigo uma bênção vinda do alto.
Começa a garoar, bem típico desta grande cidade. Uma mãe abraça seu pequeno tesouro de alguns meses. Ele dorme tranqüilo, tem um anjo a lhe proteger os sonhos inocentes. Carinhosamente cobre-lhe a cabecinha, nada neste mundo conseguirá lhe fazer mal. Já outras crianças correm, festejando as pequenas bênçãos vindo do alto em forma de garoa.
Um pouco antes de irmos a outro local, um rapaz começa a chorar copiosamente, ferido por chagas abertas há tempos. Aidético e com diabetes, pede que o levemos a um hospital para hemodiálise. Lamenta-se da dor do isolamento que o aflige dia após dia. Nos conta que poucos tem coragem de chegar perto, pois temem um contágio irreversível. Mais do que a dor física, ele sofre de carência de afeto, carinho. Quer ser tratado como gente que é, sem preconceito.
Após todos terem se alimentado, marmitex são feitos para distribuição no centro da cidade, atrás do Teatro Municipal. Sob a iluminação amarela, no teto leões de pedra nos observam imponentes. Grupos se formam e, munidos de marmitex, procuram os que dormem ao relento. Ao contrário do “restaurante” do minhocão, aqui a comida não é suficiente para alimentar a todos. Muitos terão como única opção continuar dormindo. É a maneira que tem de esquecer a fome, a dor, a solidão.
Neste sábado de Carnaval, visito os “Anjos” novamente, tomado de saudade. Observados pelos mesmos leões de janeiro, Kaká conta-me do mais belo presente de aniversário que já teve: Anos atrás ele comemorou seu aniversário junto com os moradores de rua, com bolo e tudo. Sem que ele soubesse, os moradores haviam distribuído convites, fizeram inúmeras faixas, organizaram um coral de pequenas crianças, tudo para homenagear àquele que tanto faz por eles. Ele mal podia falar, tomado de lágrimas pela linda festa que eles lhe fizeram. Sentiu-se pequeno diante de tanta demonstração de carinho.
Segundo diversas crenças, existem alguns anjos entre nós, disfarçados de gente. Simples, humildes, passam desapercebidos. Valorizam a bondade, a inocência e a pureza que existe dentro de cada um de nós. Sorte de quem teve a felicidade de encontrar um único destes anjos. Sou um dos raros privilegiados que encontrou alguns. Um destes anjos mobiliza dezenas de amigos todas as semanas para que, juntos, centenas de pessoas que moram nas ruas possam ter dignidade de serem, acima de tudo, humanos.
Com esta crônica tentamos espalhar sementinhas de assistência aos quatro ventos da Internet. Quem sabe algumas brotam AÍ NA SUA CIDADE?
março 30, 2003
março 15, 2003
Minha estréia
Hoje, fiz meu primeiro atendimento no projeto social no qual ingressei. Tudo ainda é muito novo para mim mas já estou adorando. Recebi os pacientes melhor do que eu imaginava e acho que eles também não esperavam tanta atenção.
Porém, tive minha primeira decepção quando percebi que posso fazer muito menos do que eu gostaria. É muito triste ver alguém precisando de ajuda e não poder fazer nada por aquela pessoa mas isso acontece com freqüência. Afinal, os sistemas de educação e saúde de nosso país estão péssimos e muitas pessoas que precisam se tratar não o fazem por falta de conhecimento e/ou por falta de atendimento.
Uma outra coisa que me preocupou foi ter visto uma veterana reclamar que ainda não sabe "quase nada", que a cada dia ela percebe que tem muito mais que precisa aprender, que deixa de perguntar muita coisa (às vezes por não ter pensado outras por não saber mesmo). Eu imaginava que esse sentimento de "ai, como sou ignorante" iria diminuindo com o tempo mas pecebi que a tendência é aumentar porque quanto mais a gente estuda, mais percebe que precisa aprender e mais responsabilidade precisa ter. Paciência...
O problema é que mal temos tempo para estudar para as provas da faculdade e aprender o que nos exigem em sala de aula. Quando encontrar tempo para estudar o que nos interessa na profissão???
Hoje, fiz meu primeiro atendimento no projeto social no qual ingressei. Tudo ainda é muito novo para mim mas já estou adorando. Recebi os pacientes melhor do que eu imaginava e acho que eles também não esperavam tanta atenção.
Porém, tive minha primeira decepção quando percebi que posso fazer muito menos do que eu gostaria. É muito triste ver alguém precisando de ajuda e não poder fazer nada por aquela pessoa mas isso acontece com freqüência. Afinal, os sistemas de educação e saúde de nosso país estão péssimos e muitas pessoas que precisam se tratar não o fazem por falta de conhecimento e/ou por falta de atendimento.
Uma outra coisa que me preocupou foi ter visto uma veterana reclamar que ainda não sabe "quase nada", que a cada dia ela percebe que tem muito mais que precisa aprender, que deixa de perguntar muita coisa (às vezes por não ter pensado outras por não saber mesmo). Eu imaginava que esse sentimento de "ai, como sou ignorante" iria diminuindo com o tempo mas pecebi que a tendência é aumentar porque quanto mais a gente estuda, mais percebe que precisa aprender e mais responsabilidade precisa ter. Paciência...
O problema é que mal temos tempo para estudar para as provas da faculdade e aprender o que nos exigem em sala de aula. Quando encontrar tempo para estudar o que nos interessa na profissão???
março 01, 2003
Minha visão infantil e limitada me impediu de perceber antes o quanto é difícil fazer com responsabilidade um trabalho social.
Participei, durante essa semana, de um curso na faculdade para poder atuar socialmente, fazendo um 'pré-atendimento' com pessoas em uma favela.
Foi assustador receber aquele monte de informação e perceber que, mais uma vez, terei que enfrentar a mim mesma, meus preconceitos e minhas dificuldades para agir.
Quase desisti no meio do curso mas se fizesse isso teria que desistir da faculdade também, pois estaria indo contra meus princípios e objetivos, definidos quando decidi ser médica.
Não importa as dificuldades que terei que enfrentar, as barreiras que terei que ultrapassar, quero fazer esse trabalho, dar meu sangue por ele, aprender muito. Espero que consiga ir em frente até o fim. Não vai ser fácil mas, com certeza, valerá a pena.
Participei, durante essa semana, de um curso na faculdade para poder atuar socialmente, fazendo um 'pré-atendimento' com pessoas em uma favela.
Foi assustador receber aquele monte de informação e perceber que, mais uma vez, terei que enfrentar a mim mesma, meus preconceitos e minhas dificuldades para agir.
Quase desisti no meio do curso mas se fizesse isso teria que desistir da faculdade também, pois estaria indo contra meus princípios e objetivos, definidos quando decidi ser médica.
Não importa as dificuldades que terei que enfrentar, as barreiras que terei que ultrapassar, quero fazer esse trabalho, dar meu sangue por ele, aprender muito. Espero que consiga ir em frente até o fim. Não vai ser fácil mas, com certeza, valerá a pena.
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